terça-feira, 6 de março de 2012

A Espera (1)


A Espera

Um dia à espera. Chegou pela manhã, sentou-se no banco de madeira no interior da estação. Esperava o comboio que o havia de levar a Paris. Era lá que estava a namorada, e ele sonhava cada dia e cada noite com o momento de a conhecer.
Tinham tido o primeiro contacto via internet. Ela apenas lhe tinha mandado uma foto em que a máquina a apanhara um pouco de lado. Percebiam-se feições belas no jogo de luz que o fotógrafo artisticamente havia conseguido.

O olhar, esse olhar que ele imaginava sedutor, num misto de tristeza e encanto no reflexo dos olhos que ela tinha dito serem de um verde esbatido. Ele imaginava-a de olhos grandes, abertos e rodeados por um fino fio de tom escurecido com que cada manhã ela procurava enaltecer a beleza natural com que Deus a bafejara no momento da sua concepção, olhos com luz brilhando na noite dos seus sonhos.

Sim, todas as noites ele a via no seu pensamento, mas nunca pôde descortinar-lhe o olhar ou qualquer outra feição do corpo, porque, por mais que a buscasse em sua mente, ela estava lá, distante, e as imagens que criara no pensamento eram fugidias como raios de luz que vão e vêm deixando apenas reflexos e algumas marcas de dor gravadas pela saudade.

A voz, tinha-a escutado uma vez, apenas, e numa má ligação, num desses dias em que o programa de comunicação do computador, para mal dos seus pecados, parecia estar entupido. Ouviu-a e quase não disse nada. As lágrimas correram-lhe pelo rosto. Traziam do coração o que nele encontraram: uma alegria onde borbulhava a certeza de que lá longe alguém o amava e uma saudade escura onde a tristeza nascia, essa tristeza que lhe trazia vontade de deitar mãos à cabeça e arrancar os cabelos um a um como se cada um deles fosse um pedaço de vida a morrer.

As lágrimas saíram quando o aveludado da voz lhe chegou aos ouvidos e um arrepio frio lhe subiu o corpo e o fez tremer num suspiro quente. Por momentos pôde sentir o aroma do perfume de côco com que, nos sonhos de cada noite, ele a impregnava.

Um sorriso lhe saíra dos lábios quando percebeu que estava de novo dentro da realidade e que aquilo não fora mais que um rápido momento de encanto. Sorriu por se sentir uma criança a viver um mundo de ilusão. Mas, a voz dela ainda se fazia ouvir expressando um português atraiçoado pelo facto de ter nascido em França e de ter aprendido a língua dos pais numas curtas lições de escola e nas brincadeiras com os primos, durante as férias. Barafustou quando a ligação caiu. Nunca mais tinham falado de viva voz.

De cabeça baixa, no banco da estação, espera.

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