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quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O Vazio (2)




Um homem veio. Tinha saído do comboio que por momentos parara e num instante retomara a viagem sob a ordem da bandeira vermelha, suja e enrolada num pedaço de madeira velha. O olhar lançou-se sobre o homem sentado no banco: a ponta do atacador de um dos sapatos estendia-se no chão dando a perceber que a ordem e a desordem se debatiam na sua mente. O olhar vago dirigia-se para o infinito e por isso não enxergava o mundo que à sua volta girava em cada dia. Quem o conhece mais de perto sabe que vive a vida como um zumbi, meio alheado na ilusão virtual de uma vida entre o real e a ficção, ao jeito da mulher que lhe toldou a razão e contrai o coração.


O homem que acabara de chegar, depois de passar o olhar pelo relógio, abriu o fecho do saco que trazia ao ombro e tirou um jornal que, por momentos atirou sobre o banco de madeira, para se sentar, pesadamente, logo de seguida.

Um olhar fugidio sobre as parangonas do jornal, permitiu ver em título que o “défice custa 1380,00€ a cada português”. “Uma vergonha, pensou, afinal de contas para onde vai este país? Insegurança, pobreza, justiça tardia e inconclusiva sobretudo quando estão em causa os grandes, os poderosos”. Abanou a cabeça e fechou os olhos como se quisesse sacudir e esquecer o que acabava de ler e pensar. “Bom dia” - Ouviu a saudação que lhe era dirigida e respondeu com um “bom dia” morno e arrastado, em jeito de quem não parece minimamente interessado em estabelecer qualquer tipo de comunicação com aquele desconhecido transeunte de barba por aparar e sorriso que lhe sai mais da expressão que dos lábios.

Voltando aos seus negativos pensamentos, vociferou em silenciosa antipatia “Como é que esta gente tem disposição para dizer bom dia a gente que nunca viu mais gorda nem mais magra?”. Sentiu-se ainda mais cheio de si mesmo e fechado num mundo onde nada mais cabia, além dele próprio e da desconhecida beldade, por causa de quem estava ali taciturnamente sentado num banco de madeira e à espera de um comboio que o levaria não se sabe onde e, sinceramente, nem porquê.

O outro levantou-se, anónimo, e partiu com o jornal debaixo do braço. Levava no rosto o seu sorriso, que não pôde partilhar, e no coração, mais que na mente, um ranchinho de três filhos e uma esposa que há seis meses não via. Saiu e já os braços se abriam em arco e a voz os envolvia num quente “Oláááá” revelador de um amor e saudade que a distância e o tempo não apagam, antes solidificam e enraízam.

E ele continuou ali sentado à espera do que não encontrava, à escuta do que não se ouvia.

Som estridente de ferro contra ferro, um comboio parou. 

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