domingo, 19 de maio de 2013

Gente Caída (24)


Caminhou em direção à estação Central do Metropolitano.

Acompanhava-a a solidão, uma solidão desejada e querida. Saiu simplesmente para observar e pensar. Pelo caminho viu gente agitada e apressada, jovens barulhentos em grupo, gente cansada de trabalho, homens e mulheres  a rir, gente de gravata e ricamente vestida, homens e mulheres vestidos de trapos e despidos de dignidade.

Dentro do mundo que é a cidade Nova Iorque, uma portuguesa caminha na noite, nunca saíra de casa tão tarde desde que estava nos EUA, e mede com o pensamento tudo o que acontece à sua volta:  enquanto se sente feliz por se saber amada, mesmo num país longe do seu, das suas coisas e suas gentes, pensa em quanta daquela gente que ali vive na noite se sentirá como ela, imagina quanta daquela gente se sentirá ser simplesmente um corpo sem alma, vazio de amor e distante de alguém que os ame!

Pais de família agarrados pelo álcool, que, ao longo dos anos, lhes veio apodrecendo a vontade de caminhar por sendas direitas. Jovens enganados pelo prazer que lhes é ministrado em límpidos cálices de gozo instantâneo que não passa além de ilusão de sentido. Crianças maltrapilhas agarradas ao nada dos contentores de lixo em busca de um pedaço de pão.

Pensou no mundo e na força dos dólares despejados  a “resmas” no mundo e no submundo da Broadway e de outros espaços de barulho, luz, cor e prazer. Mundos e vidas a viver em lados opostos e a roçar-se permanentemente por tão próximas se encontrarem.

“Porque é que Deus permite que tal aconteça se é Pai e Bom?” A resposta resvalou para compreensões de tempos passados quando, desde criança, ouviu dizer, vezes sem conta, que livres é que fomos criados, o ser humano em geral, e cada pessoa em particular. Livres para construir, mas com capacidade para destruir; livres para amar, mas com capacidade para odiar; livres para oferecer a vida por um filho que chora na noite do tempo ou da vida, mas com capacidade para recusar  um filho que nasce ou pede pão; livres para partilhar, mas com capacidade para o egoísmo.

Sentada a uma das mesas de um dos restaurantes “fast-food” da estação, uma jovem limpa os olhos com os dedos da mão com que segura a cabeça, como se quisesse estancar e abafar as lágrimas amargas que insistiam em não parar.

A Ninfa percebeu que era sofrimento real aquele. Tocada por uma força  impulsiva, vinda, não sabe de onde, sentou-se na cadeira diante dela e ficou, silenciosa, a olhá-la…      

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